Creo no Deus da fé de Jesús, Deus que se aninha no ventre vazio da mendiga e se deita na rede para descansar dos desmandos do mundo. Deus da Arca de Noé, dos cavalos de fogo Elias, de baleia de Jonás, Deus que extrapola a nossa fé, discorda de nossos juizos e ri nossas pretensöes; enfada-se com nossos sermòes moralistas e diverte-se qyuando o nosso destempero profere blasfémias.
Creio no Deus que, na ninha infância, plantou uma jabuticabeira en cada estrella e, na juventude, enciumou-se qyuando me viu beijar a primeira namorada. Deus festeiro e seresteiro, ele que criou a lua para enfeitar as noites de deleire e as auroras para amoldurar a sinfonía passarinha dos amanheceres.
Creio no Deus dos maniacos de pressivos, das obsessôes psicóticas, da esquizofrenia alucinada. Deus de artes que densuda o real e faz a beleza resplandecer prenhe de densidade espiritual. Deus bailarino que, na ponta dos pés, entra en siléncio no palco do coraçao e, soada a música, arrebata nos à saciedade.
Creio no Deus do espanto de María, de trilha labotal dos formigas e do bocejo sideral, dos buracos negros. Deus despojado, montado num jumento, sem podra onde recostar a cabeça, aterrorizado pela propia franqueza.
Creio no Deus que se esconde no avèsso da razào ateia, observa o emperho dois cientistas em decifrar-lhe os jogos, encanta-se com a liturgia amorosa de corpos excretando sumos a embriagar espiritos.
Creio no Deus intangivel ao ódio mais cruel, ás diatribes explosivas, ao hediondo coraçâo daqueles que se nutrem com a morte alheia. Misericordioso, Deus se agacha á nossa pequenez, suplica por um cafuné e pede colo, exausto frente à profusào de estutices humanas.
Creio sobretudo que Deus cré em mim, em cada um de nós, em todos os seres gerados pelo mistério abissal de trés pessoas enlaçadas pelo amor e cuja suficiéncia desbordou nessa Criaçâo sustentada, em todo o seu esplendor, pelo frágil fio de nosso acto de fé.